01 - Recrutamento Involuntário
Ao sul de Fortaleza, pela interminável CE-060, eventualmente se alcança Quixadá, uma terra de imensa beleza, cuja vegetação distinta, e mistérios peculiarmente singulares, definem a região como uma verdadeira meca de caçadores do sobrenat
ural e do extraterrestre... E assim foi a breve e forte luz anil que se emanou pelas nuvens daquela madrugada; como um raio que, em vez de beijar a terra, decidiu ser diferente e flertou com os céus, enviando de volta, para cima, aquele feixe de luz reluzente.
Não muito longe do evento luminoso, no Acampamento da Tribo Benjamim, enquanto suas esposas debatiam a respeito de assuntos além de suas compreensões mundanas, Tiago e Daniel, em vão, buscavam OVNIs no céu vastamente estrelado, e somente por isso foram capazes de brevemente avistar a poderosa luz anil...
- Caralho, velho! - Falou Daniel. - Tu viu isso?!
- Mermão, que parada foi essa? - Respondeu Tiago. - Bora lá ver qual foi?!
- Vocês vão pra onde, hein? O que é isso aí? - Uma das mulheres os indagou, havendo captado o tom de mistério na voz dos cônjuges.
- Nããão, nada não, a gente vai só ali ver um negócio. - Disse Daniel, buscando soar o mais natural e indiferente o possível enquanto coçava a cabeça careca a fim de disfarçar a empolgação.
- Ah, vocês vão atrás de disco voador. Devo me preocupar? - A esposa de Tiago lançou.
- Claro que não, meu amor. Eles é que tem que se preocupar com a gente. - Tiago lhes disse, enquanto ajeitava as pontas curvas do bigode.
Ao chegarem no local onde pensavam que o tal evento havia tido origem, os amigos se viram em meio à escuridão brutal alumiada somente pelos faróis incandescentes de um clássico Comodoro preto, modelo 1976, coberto por fumaça incomum que não parecia ter origem nenhuma, já que não havia menor sinal de fogo... As portas abertas, e ao chão, há poucos passos do carro, os amigos viram dois homens de terno caídos. Um inconsciente, e o outro sentado com as costas para o carro...
Tiago e Daniel se aproximaram para ajudar as vítimas do acidente. O homem sentado apontou para eles o que a início parecia ser um revólver.
- Parados aí mesmo, seus vermes! Seus... Vermes? - O acidentado parecia estar um pouco confuso, mas sua ameaça ainda bastante válida, fez com que, na adrenalina do momento, Daniel se escondesse atrás de Tiago enquanto pedia calma ao homem.
- Opa! Calma, calma aí... A gente veio ajudar! Né, Tiago?
- Ei, macho, sai de trás, se ele atirar em mim tu morre também porque tu é o próximo!
- Quem são vocês?! - O homem falou ao abaixar a arma estranha.
- Macho, a gente viu uma luz muito forte, e aí a gente veio olhar o que era, vocês bateram o carro foi? - Tiago o indagou.
- Bateram onde, Tiago? Tu ta vendo o carro amassado? - Indagou Daniel, agora mais calmo.
- Não... Foram... Foram eles. Vocês dois precisam ser rápidos. O carro foi incapacitado... Agora eles vão mandar um agente de campo. Rápido... Peguem isso!
Então, o homem misterioso tirou do bolso uma Pentax K1000, uma câmera fotográfica antiga.
- Mermão, isso aqui é uma...
- Vocês dois precisam continuar a missão. - O homem bruscamente interrompeu Tiago, encantado pela pequena relíquia. - Peguem dois ternos no porta-malas, eles vão bloquear o sinal vital de vocês, e assim....? - De repente, ele parou... Como se buscasse na memória as informações que estava fornecendo...
- E assim o quê?! - Daniel gritou, impaciente.
- Calma, cara... O cara tá baqueado da batida ainda.
- Ele não bateu o carro, Tiago! - Disse Daniel.
- E assim! - O homem então continuou sua fala. - E assim, com os ternos, vocês não poderão ser abduzidos! Vistam os ternos... Levem a câmera pra Lagoa dos Monólitos... E rápido, gente... Eu não tenho muito tempo. Por favor.
- Cara, a gente te entendeu, mas a gente vai só chamar uma ambulância antes, beleza? Pode ser, querido? - Tiago disse, ainda preocupado com a saúde do homem.
- Não dá tempo, gente. Levem a câmera. Vistam os ternos pra sua segurança... Vocês tem alguns minutos ainda. No máximo. Ah... E levem isso. - Ele então entregou a arma, semelhante a um revólver, para os amigos. - Ainda tem um tiro, então usem com sabedoria. E por favor... Vão. - O homem disse enquanto seu semblante parecia cada vez mais longe... Cada vez mais perdido...
- Amigo? Oi? Cara, ele tá acordado mas parece que apagou por dentro. Confere lá o porta-malas pra ver se tem dois ternos mesmo. Vai que tem, e essa porra é séria, né?
- Tu acha, macho? E esse tal "agente de campo"... O que tu acha que é? Um robô? - Daniel indagou o amigo.
- Macho, eu tenho minhas suspeitas... Mas deixa pra lá. Ligar aqui pro SAMU.
Enquanto Tiago tentava ligar para a emergência, Daniel foi até o porta-malas e encontrou não dois, mas vários ternos enrolados em plástico. Ele tirou dois
- Droga, cara... Tá sem sinal aqui. - Tiago disse enquanto levantava o aparelho... E enquanto buscava melhorar a recepção do seu celular... Ele pensou ter escutado algo ao longe, no breu da noite. Algo quase que como o som de um rosnado...
- Daniel... Daniel, mah...
- Cara, e os ternos são bonitos, viu...
- Daniel, macho! Cala a boca ai, viado! - Thiago gritou sussurrando enquanto fazia gestos de silêncio para o amigo, que usava a lanterna do celular para olhar melhor os ternos.
- Que foi?! - Daniel perguntou sussurrando de volta.
- Não sei... Mas eu acho que a gente precisa sair daqui, cara. Pra ontem. - Tiago disse enquanto, meio abaixado próximo ao carro, tentava enxergar algo na escuridão da região. O rosnado ao longe, baixo, quase inaudível, se fez presente novamente, e Daniel, com os olhos esbugalhados, perguntou baixinho...
- Caralho, que porra é essa? Uma onça?
E então, pra surpresa dos dois... O homem acidentado, como que num sopro de sanidade repentina, sussurrou...
- Chupa-cabra........

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